A potencialidade do Design

Estudos Contemporâneos em Design
Docente: Vitor Almeida

Exercício: Reflexão escrita sobre a dimensão política do design

 

A ideia de design gráfico remonta a séculos passados, sendo imprecisa a data do seu início. Sabemos que por volta de 1890, criaram-se os primeiros posters, o meio gráfico mais simples: apenas numa folha, impressa num único lado. Eram impressos através da impressão tipográfica, como os livros, através de tinta preta, com algumas ilustrações ocasionais.

Na época da Primeira Guerra Mundial, estabeleceu-se a importância do design gráfico. A composição, ilustração e informação ajudaram a instruir. Sinais e símbolos de identificação militar, de posto e de unidade, foram um código de estatuto que foi imediatamente compreendido. Os governos solicitaram anúncios públicos e propaganda a designers, a fim de exortarem os cidadãos a participar no esforço de guerra. (Hollis, 1994: 32)

Durante e após a Segunda Guerra Mundial, o design gráfico no mundo Ocidental, teve um papel essencial na vida política. As paredes eram cobertas de posters, panfletos eram distribuídos nas ruas e placares eram afixados em reuniões e manifestações (idem: 104). No entanto, a explosão dos grafismos de rua deixou pouca experiência e conhecimento que podiam servir de base para a construção. Robin Fiordesigner britânico que viveu em Lisboa desde 1972 e que foi autor de cartazes políticos da Revolução do 25 de Abril e do símbolo do Movimento de Esquerda Socialista, refere no artigo “Grafismo Global e Local – Design gráfico em Portugal desde 1974” publicado no número 5 da revista Letras e Culturas Lusófonas Camões, em 1999, que o design passou por duas revoluções, uma delas política, com o 25 de Abril, e outra tecnológica com a era dos computadores.

Na revolução política, a qualidade do design e a sua função popularizaram-se. Fior diz que a quantidade de marcas e sinais, impressas e pintadas, pareciam estar à espera de ser consignadas ao caixote do lixo da história. Contudo, a consciência e interesse pelo design e tipografia foi aos poucos cultivada.

Design is like a mom, nobody notices when she’s around, but everybody misses her when she’s not. (Borray, n.d.)

Com o romper da era dos computadores a publicidade começou a ganhar mais espaço no mercado, com uma linguagem direta e com um tom de voz pessoal e coloquial, tanto na televisão como na página impressa, tendo sido quebrada a barreira entre a fala e a escrita. Os computadores facilitaram a transmissão de conteúdos e a transformação dos mesmos, poupando-se tempo na concepção. Contudo, o tempo para pensar, para definir uma ideia e estruturá-la foi descurado, de certa forma, pela existência dos mesmos, direta e indiretamente. Actualmente, de forma geral, a preocupação prende-se nos resultados económicos, desconsiderando a importância do tempo.

No manifesto First Things First, de 1964, Robin Fior e outros designers, defendem o trabalho ambiental, social e cultural do designer. O designer desperdiça as suas capacidades e imaginação com publicidade de produtos irrisórios, não essenciais, para gerar mais economia. É necessário criar um propósito mais educacional e cultural para o design. É, portanto, essencial o designer investigar uma causa social, política e cultural, permitindo criar conexões, influências e estratégias. Contudo, este processo de aprendizagem é muitas vezes considerado acessório. Esta crítica sobre o design actual é reforçada por Francisco Laranjo, designer português (1955), no artigo “Critical Everything“, 2015, onde defende que é necessário especular sobre as implicações sociais, políticas e culturais dos objectos do dia-a-dia, produzindo trabalhos de design que questionam e desafiam o status-quo, mais do que o reforçam.

A potencialidade do design depende da forma como ele é construído, sendo impossível separar o «quê» do «como». Se tratarmos o design como uma forma de «mudar o mundo», podemos criar novas formas de ver, entender e percepcionar o que está a nossa volta. É, assim, crucial cultivar uma crença no poder do design.

Without good design it is easy to miss the point. (Wark, n.d.)

Design Will Save The World – Unisex T-shirt from Artefacture.

Rob Walker, em “A Golden Age of Design“,2014 , defende que o design mudou fundamentalmente a forma como experienciamos o mundo, tornando-se um criador de negócios e um divulgador de ideias ao mesmo tempo. Pode assim o design, não só elevar ideias, como ser uma ideia. Isto aumenta a potencialidade do design exponencialmente.

Mas esta potencialidade tem de ser cultivada através do trabalho social, ambiental, político e cultural do designer. O interesse para questionar, através do design, quais são os problemas sistémicos, de infra-estrutura, e necessariamente políticos tem vindo a crescer. “A politica não é opcional para os designers, mas sim parte integrante da sua atividade.” (Laranjo, 2014, Critical Everything) O design tem de ser capaz de debater e examinar abertamente a forma como comunica.

Devemos, portanto, tratar o design como uma atividade com importância social, política e cultural que pode consciencializar e instruir a sociedade para os mais diversos assuntos.


Referências:

  • Hollis, R. (1994). Graphic Design A Concise History. United Kingdom: Thames & Hudson world
    of art.
  • Grafismo Global e Local. Design Gráfico em Portugal desde 1974, Fior, Robin, 1999, consultado a 08/10/2015 em http://www.artecapital.net/arq_des-88-homenagem-a-robin-fior-1935-2012-
  • First Things First, vários autores,1964, consultado a 08/10/2015 em http://moralonge.blogspot.pt/2008/12/manifesto-first-things-first.html
  • Critical Everything, Laranjo, Francisco, 2015, consultado a 08/10/2015 em http://www.grafik.net/category/feature/critical-everything#
  • A Golden Age of Design, Walker, Rob, 2014, consultado a 08/10/2015 em http://www.nytimes.com/2014/09/22/t-magazine/design-golden-age.html?_r=0

Palavras-chave: Design; Ideia; Crítica; Política; Social

Anúncios

About Sofia Gralha

Currently studying for Master of Design Communication and New Media in Faculty of fine Arts at Lisbon. Available for freelancer jobs! Worked as Visual Communication Designer and Designer Chief on a marketing company at Guarda, Portugal - Plataforma Jota, for almost 3 years. Finished the undergraduate of Communication and Multimedia Design in College of Education of Coimbra, Portugal, at 2012. Attended the Erasmus Mobility Program in University of Portsmouth, UK, during 4 months. Held a internship in Menina Design Group at Porto, Portugal, during 3 months.

One comment

  1. O comentário seguiu por email pessoal.

    Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: